Notícias



Mulheres e meninas na ciência: mesmo com avanços, acesso e permanência ainda são desafios

Dificuldades e iniciativas que buscam superar obstáculos foram debatidas em Audiência Pública realizada na Câmara Municipal

1229


Apenas 33,3% dos pesquisadores de todo o mundo são mulheres, segundo levantamento realizado pela Unesco. Essa sub-representação foi tema da Audiência Pública “Meninas e mulheres na ciência”, realizada no Plenário da Câmara na noite de quarta-feira (11), dia em que se celebra o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência.

 

O evento foi convocado pela vereadora Fabi Virgílio (PT) e contou com a participação de Maria Paula (PT), que também integra a Frente Parlamentar em Defesa dos Direitos das Mulheres e das Meninas. Fabi destacou a importância do assunto e a necessidade de se discutir a forma como a ciência é apresentada durante o processo de amadurecimento e formação de meninas.

 

“Ainda hoje, muitas meninas crescem sem se enxergar como futuras cientistas, engenheiras, médicas, matemáticas ou pesquisadoras, e isso não acontece por falta de talento. Acontece porque, historicamente, a ciência foi apresentada como um espaço masculino, distante e inacessível e quase proibido para as mulheres”, concordou a representante da Secretaria de Educação, Thaís Angeli.

 

“É fundamental que as políticas públicas e as instituições assumam o compromisso de estimular as meninas desde cedo. A escola tem um papel decisivo nesse processo. É na educação básica que nasce a curiosidade, o encantamento pela descoberta e a percepção de que aprender é transformar o mundo”, ressaltou.

 

Soluções em Araraquara

Buscando contribuir para a derrubada de barreiras no acesso de meninas à ciência, o Centro de Ciências de Araraquara (CCA), vinculado ao Instituto de Química (IQ), realiza o projeto “Futuras divulgadoras científicas de museus: Educação museal para o desenvolvimento sustentável”, financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

 

Ana Clara Pimentel de Sá e Lima foi uma das dez estudantes do ensino básico contempladas com uma bolsa para participarem do projeto realizando pesquisas, oficinas de mediação em museus e visitas técnicas a espaços científicos. Para ela, projetos do tipo são necessários para que alunas de escolas públicas entendam as carreiras científicas como possibilidades. “Esse projeto me deu a confiança necessária para seguir na área acadêmica. Agora, eu vou começar a faculdade de Farmácia”, contou.

 

O campus de Araraquara do Instituto Federal de São Paulo (IFSP) também busca incentivar o interesse de meninas pela ciência e tecnologia. Para isso, participa do Technovation Girls Brasil, programa que promove uma competição de empreendedorismo tecnológico para meninas.

 

“Eu vejo o quanto essa geração já vem um pouco mais consciente, mas muitas ainda dizem ‘antes desse projeto, eu não sabia que eu era capaz’”, comentou a professora do IFSP Renata Maria Porto Vanni. “Nós não estamos só ensinando programação, plano de negócios e liderança. Queremos ensiná-las a terem coragem de apresentar as ideias para o mundo.”

 

Para Yasmin Silva Rios, que integra o projeto, a experiência de estudar programação e participar da competição foi transformadora. “A ciência me formou não só na área que eu queria, mas também como pessoa, como alguém que pensa, age e tem propostas diferentes e que tem sonhos maiores do que antes.”

 

Obstáculos sociais          

Outra iniciativa presente na cidade é o “Meninas nas Ciências Exatas, Engenharias e Computação”, coordenada na Região Sudeste pela professora e pesquisadora do Instituto de Química da Unesp Araraquara, Cíntia Milagre. Realizado em nível nacional a partir de um edital do CNPq, o projeto tem como foco a educação e popularização da ciência para redução das desigualdades.

 

A ideia era selecionar duas escolas de educação básica localizadas em regiões afastadas do centro da cidade e que tivessem professoras ministrando as disciplinas de ciências. No entanto, os desafios surgiram logo no início.

 

Em uma das instituições de ensino, as disciplinas de Matemática, Física e Química eram ministradas exclusivamente por homens, e as vagas do grupo não puderam ser preenchidas. “Vejam que as meninas dessa escola não têm nenhum ‘espelho’ para observar e falar: ‘Eu também posso seguir para essas áreas’, porque elas só têm professores homens”, comentou a pesquisadora.

 

Além disso, buscava-se formar uma equipe composta majoritariamente por pessoas pretas, pardas ou indígenas. “Aí temos o nosso segundo obstáculo, porque não conseguimos preencher todas as vagas dentro desse recorte”, contou.

           

O relato vai ao encontro das percepções apresentadas na audiência. Mesmo com a existência de diferentes iniciativas, o acesso é, muitas vezes, dificultado pela distância, pela ineficiência do transporte público, pela insegurança no trajeto e por questões financeiras.

 

“Se queremos mulheres e meninas na graduação, na pós-graduação, nos centros de pesquisas, precisamos primeiro garantir que elas cheguem à escola e que consigam permanecer. Precisamos de políticas públicas de base, contínuas e efetivas, porque nenhuma menina vai conseguir conquistar um diploma se antes lhe for negado o básico”, ressaltou a doutoranda Karolina Ruiz.

 

Permanência

Para a diretora do Instituto de Química da Unesp Araraquara (IQ-Unesp), Denise Bevilacqua, a subrepresentação de meninas e mulheres em espaços de decisão demonstra a urgência da discussão. “E o desafio não é apenas entrar na ciência. É permanecer, prosperar, lidar e ser reconhecida em ambientes onde excelência e respeito sejam inseparáveis”, disse.

 

Bevilacqua cita o Instituto de Química como exemplo. Hoje, nos cursos de graduação, 52% dos estudantes são homens, enquanto 48% são mulheres. Na pós-graduação, a instituição alcançou a paridade de gênero. Mulheres são autoras de metade das teses defendidas. No entanto, ao longo de 65 anos de história, a unidade teve apenas três diretoras e três vice-diretoras. “Esse contraste nos ensina que não basta abrir portas de entrada. É preciso construir caminhos de permanência, reconhecimento e liderança”, destacou a diretora do IQ.

 

“Não haverá futuro sustentável sem a participação plena das mulheres. Por isso, eu deixo um convite à ação conjunta com compromissos claros, aproximar escolas e universidade, fortalecer redes de mentoria, garantir ambientes seguros e respeitosos, dar visibilidade a referências femininas e consolidar com o poder público e a sociedade civil políticas e investimentos que mantenham meninas e mulheres na rota da ciência, tecnologia e inovação”, concluiu.

 

Assista na íntegra

A Audiência Pública foi transmitida ao vivo pela TV Câmara, no canal 17 da Claro, e está disponível na página do Facebook e no canal do YouTube da Câmara.


Publicado em: 13 de fevereiro de 2026

Cadastre-se e receba notícias em seu email

Categoria: Câmara

Comentários

Adicione seu comentário

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.


Outras Notícias

Fique por dentro

Agenda Cultural – 06/03

06 de março de 2026

Feiras O reggae embala a programação da Feira Aqa Criativa nesta sexta-feira (6), das 18 às 22 horas, na Praça das Bandeiras, no Centro, com a edição “Reggae Sunset”, com discotecagem do gênero mu...



Agenda Esportiva – 06/03

06 de março de 2026

Natação A Fundesport/Araraquara abre o calendário regional de natação no Complexo Aquático da Fonte Luminosa no sábado (7). Promovido e organizado pela Federação Aquática Paulista (FAP), o torneio...



Divulgação antecipada de atração de Carnaval não partiu da Prefeitura, afirma gestão municipal

06 de março de 2026

A divulgação antecipada de apresentação da banda Sambalaxo como parte da programação do Carnaval 2026 não partiu de servidores públicos municipais nem de integrantes da comissão responsável pela se...



Dia da Mulher (07/03)

06 de março de 2026

A Prefeitura de Araraquara preparou uma programação especial para o Dia Internacional da Mulher, com atividades voltadas à conscientização, acolhimento e fortalecimento das políticas públicas para...



Fluxo de caixa (17/03)

06 de março de 2026

O Sebrae promove na terça-feira (17), às 19h, no Escritório Regional de Araraquara, a oficina gratuita “Faça do fluxo de caixa e saiba para onde vai seu dinheiro”, voltada a MEIs e focada na organi...



Compulsão por apostas

06 de março de 2026

O Ministério da Saúde anunciou o serviço de teleatendimento em saúde mental pelo SUS voltado a pessoas com compulsão por jogos de apostas. A iniciativa é direcionada a maiores de 18 anos e também p...





Esse site armazena dados (como cookies), o que permite que determinadas funcionalidades (como análises e personalização) funcionem apropriadamente. Clique aqui e saiba mais!