Notícias



Superação do machismo e ampliação da visibilidade são desafios para o futebol feminino

Audiência Pública sobre o tema ocorreu na Câmara nesta quinta (26); evento foi convocado pelas vereadoras Filipa Brunelli, Fabi Virgílio e Maria Paula, todas do PT

74


Superação do machismo e da misoginia e ampliação da visibilidade são barreiras que o futebol feminino – em Araraquara e no Brasil – precisa enfrentar. Para isso, é necessário oferecer oportunidades, melhorar a estrutura de trabalho, angariar mais apoio do público e aprimorar a formação das profissionais.

Essas foram as principais considerações da Audiência Pública “Futebol feminino: desafios e perspectivas”, realizada na Câmara de Araraquara na noite desta quinta-feira (26). O evento foi convocado pelas vereadoras Filipa Brunelli, Fabi Virgílio e Maria Paula (todas do PT).

Contribuíram para o debate profissionais de diversas vertentes da modalidade, que expuseram seus pontos de vista e compartilharam as próprias trajetórias.

 

Raízes históricas

 

Se o Brasil tem sua identidade nacional profundamente ligada ao futebol, este vínculo é com o futebol masculino – as mulheres são deixadas de lado dessa relação, e inclusive foram proibidas de jogar por décadas.

Segundo a pesquisadora Adrienne Kátia Savazoni Morelato, a exclusão feminina do esporte não foi imediata, mas construída de maneira deliberada, principalmente a partir da profissionalização do futebol, nos anos 1930.

“A mulher participou ativamente da popularização do futebol. A gente pode imaginar quem lavava as camisas, quem bordava os distintivos, quem cozinhava para os jogadores. Não tinha como aquilo funcionar se a mulher não estivesse presente, não é?”, questionou Adrienne.

Ela explicou que, com a popularização do futebol e de outros esportes, as práticas passaram a assumir caráter mais competitivo e profissional, o que desencadeou teorias que associavam a prática esportiva feminina à suposta masculinização do corpo e à perda da função reprodutiva. Essas ideias ganharam espaço tanto na imprensa quanto em debates acadêmicos.

 

Arbitragem

 

Patrícia Oliveira, que foi árbitra por 21 anos e hoje integra a Comissão de Arbitragem da Federação Paulista de Futebol (FPF), informou que o quadro da entidade conta com 443 árbitros, dos quais 36 são mulheres – um índice de 8,1%.

Relembrou caso recente de ataque machista à árbitra Daiane Muniz e afirmou que tem sido feito trabalho para inserir mais mulheres no meio, embora casos de preconceito dentro de campo continuem sendo um problema. No aspecto estrutural, citou a necessidade de serem disponibilizados, nos estádios do Brasil, mais vestiários femininos para as árbitras.

 

Zagueira da Ferroviária

 

Quem também contou ter enfrentado problemas estruturais ao longo da carreira foi a zagueira Luana Sartório, da Ferroviária. Natural de Rio Novo do Sul (ES), a atleta de 27 anos está no clube desde 2014 e tem contrato até 2027.

Começou a praticar em meio aos meninos e saiu de casa aos 15 anos para agarrar a oportunidade nas categorias de formação das Guerreiras Grenás. Na ocasião, uma dificuldade foi a ausência de alojamento para as meninas da base.

“Depois disso as coisas começaram a melhorar. Acho que hoje é totalmente diferente. Tem competições de base para meninas desde o sub-14, então são outros desafios que vão surgindo, de etapa em etapa, até chegarmos num nível, talvez, próximo do futebol masculino”, projetou.

 

Comunicação

 

A coordenadora de mídias sociais do futebol feminino da Ferroviária, Milena Cravo, e a apresentadora do programa “Elas com a bola” (Record News), Nayara Inorro, abordaram aspectos comunicacionais.

Para Milena, como o futebol feminino nunca teve o mesmo investimento que o masculino, o público ainda não está habituado a acompanhar, na mídia, o esporte das mulheres com a mesma intensidade que o dos homens.

Disse que o interesse aumenta quando a seleção brasileira feminina disputa a Copa do Mundo ou os Jogos Olímpicos, por exemplo. “Mas, em momentos em que isso não está acontecendo, a gente tem que chamar a atenção desse público de outra forma e deixar que esse público, às vezes muito pontual, se torne um público contínuo”, comentou.

Nayara destacou que, ao atuar diariamente com o tema, compreende o papel decisivo da comunicação no crescimento e na consolidação do futebol feminino, especialmente no que diz respeito à ampliação da visibilidade da modalidade. Ela afirmou que o trabalho desenvolvido tem contribuído para aproximar o público do esporte e para tornar suas dinâmicas mais acessíveis, ressaltando a importância de uma abordagem didática e contínua nesse processo.

Segundo ela, a experiência à frente do programa — no ar há quase dois anos — evidenciou esse impacto na prática, sobretudo a partir da interação com os telespectadores. Nayara relatou que recebeu mensagens de pessoas que passaram a acompanhar a modalidade ou até a incentivar crianças a iniciarem no esporte após assistirem ao conteúdo.

 

Intermediação de atletas

 

A intermediadora de atletas Janaine Camargo falou sobre sua transição de jogadora para gestora de carreira no futebol feminino, explicando que sua atuação envolve intermediação de contratos, suporte jurídico e estratégias de visibilidade para as atletas. Segundo ela, embora o modelo ainda siga referências do futebol masculino, há um esforço para adaptar o trabalho às especificidades das mulheres, com atenção às diferenças de tratamento e às demandas da modalidade.

Ela também apontou desafios na formação de jovens jogadoras, especialmente em relação às expectativas das famílias, e defendeu a importância de orientação, políticas públicas e gestão responsável para consolidar o crescimento do futebol feminino. Janaine avaliou que a modalidade evoluiu significativamente nos últimos anos e já demonstra potencial econômico, mas ainda depende de maior visibilidade e estrutura para avançar.

 

Copa do Mundo 2027

 

A Copa do Mundo Feminina, que em 2027 ocorrerá no Brasil, foi o assunto da fala de Juliana Agatte, secretária extraordinária para a competição, cargo vinculado ao Ministério do Esporte.

Segundo ela, o país assume uma série de compromissos junto à Fifa, que envolvem desde logística, segurança e facilitação de entrada de delegações até a articulação entre diferentes esferas de governo.

Juliana enfatizou que o principal foco da Copa será o legado, especialmente nos campos esportivo e social. Nesse sentido, apontou iniciativas voltadas à profissionalização do futebol feminino, ampliação do acesso à base, formação de profissionais e fortalecimento de políticas públicas, além de ações para promover a segurança e a participação das mulheres no esporte. “Está em nossas mãos construir a melhor Copa de todos os tempos e conseguirmos ter um legado duradouro”, sintetizou.

 

Transmissão

 

A Audiência Pública está disponível na íntegra aqui.


Publicado em: 27 de março de 2026

Cadastre-se e receba notícias em seu email

Categoria: Câmara

Comentários

Adicione seu comentário

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.


Outras Notícias

Fique por dentro

Agenda Cultural – 27/03

27 de março de 2026

Semana do Circo Está chegando a 5ª Semana do Circo de Araraquara! Até 5 de abril, Araraquara celebra a arte circense com apresentações e oficinas ministradas por artistas da cidade e região. O eve...



Agenda Esportiva – 27/03

27 de março de 2026

Basquete feminino Pela Liga de Basquete Feminino (LBF), o Sesi Araraquara enfrenta na quarta-feira (1), às 19h30, o Sport, no Ginásio da Uninassau,em Recife (PE). A Live transmite ao vivo a partid...



PAT (27/03)

27 de março de 2026

O Posto de Atendimento ao Trabalhador (PAT) de Araraquara divulgou, nesta sexta-feira (27), 33 vagas de emprego distribuídas em 16 cargos diferentes. As oportunidades contemplam candidatos com ensi...



Prefeitura apresenta situação de obras eleitas no Orçamento Participativo em anos anteriores

27 de março de 2026

Em resposta a um Requerimento do vereador Guilherme Bianco (PCdoB), a Prefeitura de Araraquara enviou uma lista com a situação de obras pendentes do Orçamento Participativo (OP) — escolhidas pela p...



Praça do Faveral precisa de limpeza, troca de areia e novos brinquedos

27 de março de 2026

Com o objetivo de melhorar as condições de uso de um espaço público de lazer, o vereador Michel Kary (PL) enviou à Indicação nº 1814/2026 ao Executivo, solicitando a realização de limpeza, troca da...



Lombada é implantada em cruzamento do Jardim Ártico

26 de março de 2026

A segurança no trânsito do Jardim Ártico foi reforçada com a instalação de uma lombada no cruzamento da Rua Domingos Zanin com a Avenida Francisco de Assis Bezerra Filho, realizada na quarta-feira...





Esse site armazena dados (como cookies), o que permite que determinadas funcionalidades (como análises e personalização) funcionem apropriadamente. Clique aqui e saiba mais!